Tive a idéia para esse texto há algum tempo, enquanto tomava banho (assim como as minhas melhores idéias. Quando inventarem um notebook à prova d’água, estarei feito na vida). Por algum motivo que não lembro (estava pensando sobre filhos, eu acho), me veio à mente o imbecil episódio da Avenida Paulista, nos últimos meses de 2010.
É um mini-mini conto. De qualquer forma, pelo menos é alguma coisa de minha autoria.
Cecilia
Cecilia nasceu em família pobre e teve que se virar desde o início.
Ainda pequena, via o pai trabalhando na roça para sustentar a família. A mãe consertava roupas e criava os filhos da melhor maneira que podia.
Aos dezessete anos, percebendo que aquela cidade era pequena demais para ela, foi morar com os tios na capital do estado.
Os primeiros anos foram difíceis.
No bairro onde morava, viu coisas que não podia contar à ninguém. Fez algumas amizades que seus tios reprovavam (com certa razão), mas sempre conheceu seus limites. Tinha a cabeça no devido lugar.
Aos vinte e dois, conheceu o homem de sua vida. Casou-se dois anos depois e teve três filhos. Criou-os usando os mesmos valores que havia herdado dos pais.
Teve dias felizes.
Depois de terminada a faculdade, Cecilia abriu um negócio e as coisas deram certo pra ela.
Quando seu filho tinha dezesseis anos, foi atacado em uma avenida conhecida por três outros rapazes. Um deles usava uma lâmpada como arma.
Eles eram filhos de gente rica. Só que não o tipo de gente rica como Cecília, que veio de baixo. Eles eram filhos de gente rica que sempre foi rica.
O julgamento levou quatro anos para ser concluído. Os rapazes foram condenados a prestar serviços comunitários.
As ruas ficariam um pouco mais limpas, os muros ficariam um pouco mais brancos e o filho de Cecilia continuaria cego de um olho.
Cecilia voltou, certa noite, ao seu antigo bairro. Ela havia visto coisas que não podia contar a ninguém. Visitou velhos amigos.
Algumas noites depois, três mães recebiam anonimamente em suas portas malas que gotejavam sangue. Três vizinhanças acordaram ao ouvir seus gritos de horror quando viram os conteúdos.
A muitos metros de altitude, Cecilia via as noticias em seu computador portátil. Ela sorria um sorriso frio e bastante vago.
A reunião em Los Angeles seria dali a poucas horas.
Augusto Fernandes Sales
0 comentários:
Postar um comentário