quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sobre coisas que se movem


Texto adaptado do post publicado no blog Gato Smucky em 27 de abril de 2011

Não sou um cara que se intromete na vida das pessoas. Quer dizer, quando pedem a minha opinião sobre determinada situação, aí sim me dou o direito de dizer o que acho que a pessoa deva fazer, as atitudes a serem tomadas tomar, etc, etc, etc. Pra mim, cada um tem seus próprios negócios a resolver e deve aguentar as consequências de suas escolhas durante toda a vida. Portanto, posts como esse servem para quem se encaixar no perfil descrito abaixo. Ou simplesmente para quem quiser ler.

Tenho certa bagagem profissional. Não me compreenda mal, não sou mal funcionário por onde passo ou coisa do tipo. As coisas simplesmente aconteceram de eu sair de onde estive. Foram circunstâncias. Já trabalhei em empresas pequenas, desconhecidas, médias, grandes, famosas. De todo o tipo. Conheci diversos tipos de pessoas, assim como já fiz diversos tipos de trabalho.
Mas isso não vem ao caso.
A questão que levanto aqui é outra. Na maioria desses lugares em que passei profissionalmente, encontrei um tipo específico de funcionários. Em empresas privadas eles existem em certa quantidade, mas notei que nos setores públicos eles podem ser vistos com mais frequência. E, ironicamente, o motivo é justamente algo que as pessoas buscam em empregos.
A estabilidade.
A segurança de não ser demitido pode ser um tanto ilusória. A demissão em setores públicos, sobretudo nos que usam o regime da CLT existe sim. Contudo, o que quero falar é que a tal estabilidade pode ser algo valioso nos dias de hoje, mas pode ter seu lado ruim. A atual situação do país, o desemprego e tudo o mais, faz com que as pessoas se agarrem a um emprego público como se fosse sua última oportunidade de sobrevivência. 
Mas o problema não está aí. Agarrar oportunidades não é uma coisa ruim. O problema é se acomodar a uma situação confortável, e isso não se aplica apenas ao trabalho. Quando nos acostumamos a um lugar seguro, mesmo não sendo o melhor, mesmo sendo algo que não extraia o máximo de nós mesmos, na maioria das vezes preferimos manter as coisas como estão a se arriscar a tentar conseguir algo que realmente desejamos. Falo de sonhos.
Esse medo PODE ser uma coisa positiva... SE o lugar em que está se tratar de um trabalho que você goste. E não estou falando de gostar, assim, só gostar, mas REALMENTE gostar. Gostar de verdade. Se divertir com o seu trabalho. Fazer algo em que se sinta parte de algo, ou se tiver sorte, a parte principal de algo. Não se deixar ficar em um lugar comum, fazendo coisas que qualquer um faria.
É claro que seria muito cômodo pra mim dizer pra pessoas nessas situações para simplesmente se jogar em algum curso universitário (ou algo do tipo) de qualquer maneira. Sei que há vários fatores que pesam em uma decisão dessa. Filhos, por exemplo. Ou casamento recente. Ou dependentes familiares. Todas essas coisas juntas.
O problema é quando a decisão de seguir sempre melhorando se adia cada vez mais. Cheguei à conclusão de que a rotina trabalho-casa-trabalho, exceto se você estiver fazendo o trabalho dos seus sonhos e ganhando muito bem, pode fazer seu trabalho se tornar parte da sua vida pessoal, parte do que você É. Você vai pra casa pensando nas coisas que tem que resolver no trampo. Se estressa MUITO no trabalho, pois as coisas, mesmo as pequenas, passam a te afetar de uma maneira pessoal. O trabalho com o público pode ser bem citado como um exemplo. No meu período na loja de departamentos, isso começou a acontecer comigo. Você passa a ver o cliente como um inimigo e isso é um grande erro, pois ele é simplesmente o cliente, não alguém que quer o seu mal. Ele, antes de ser um cliente, é uma pessoa, assim como você. E você, mesmo se esquecendo desse detalhe, na vida pessoal é um cliente de um monte de lugar e gosta de ser tratado bem por pessoas que estão sendo pagas pra isso. Mesmo sendo o seu trabalho atendê-lo da melhor maneira possível, você se esquece desse detalhe. Acaba se esquecendo que é pra isso que é pago.

Um emprego é um trabalho que você presta em troca de dinheiro. Nem mais e nem menos.
Esse tipo de coisa me fez enxergar que todos devemos ter uma área de escape. Uma perspectiva de mudança. Entenda bem, não temos a obrigação de deixar nossos trabalhos, mas é extremamente saudável estarmos sempre buscando melhorar. Sempre. Fazendo um curso. Aprendendo alguma coisa nova. Essa já mencionada perspectiva de melhoria nos faz pensar, no dia-a-dia do trabalho, que aquilo ali é apenas uma parte pequena, minúscula do que o mundo tem a oferecer. O trabalho comum acaba ficando mais leve se você sabe que está buscando novas possibilidades. Os problemas que você considera grandes, que te afetam mais do que deveriam, começam a perder a importância. Você sabe que eles vão desaparecer da sua vida assim que bater o ponto de saída, por exemplo.

E então, depois de ter consciência de tudo isso que eu disse acima, a pessoa vai e começa a se aprimorar na área que gosta. Fica alguns meses ou anos aprendendo algo que acha que vai fazê-la feliz. Quando chega a hora de deixar o trabalho antigo-mas-estável pra trás, pinta a insegurança. Aí é outra história. Nesse momento pode pesar aquilo de que falei. O casamento. Os filhos. As outras pessoas que dependem de você. Aí, sim, você pode pesar os prós e contras e fazer a decisão por si. Nesse caso, não há outra pessoa a escolher por você, assim como não há, de início, decisão certa ou errada.
No meu caso, ainda tenho dúvidas de vou ter algum futuro na área em que escolhi estudar. Mas ninguém vai poder me dizer que nem mesmo tentei. E isso é algo valioso, não pense que não.
É exatamente isso que eu quis dizer. Não estou te aconselhando a fazer algo com a OBRIGAÇÃO de deixar o trampo comum. Mas digo que é muito saudável a pessoa tentar ter uma alternativa, pois há vários exemplos de gente que só não dá um pé no traseiro daquele trampo do qual vive reclamando simplesmente por não ter se preparado quando teve chance.

Estude. Aprenda coisas novas. Se aprimore. Mesmo se não tiver a intenção de sair de onde está, essas coisas te fazem perceber que há bastante coisa legal por aí. Basta procurá-las.

0 comentários: