Ontem, li a notícia de que o tetracampeão de Fórmula-1, o francês Alain Prost não tem a intenção de assistir o premiado documentário sobre seu maior rival, Ayrton Senna, lançado há quase dois anos. De fato, a notícia não chega a surpreender, pois o filme retrata Prost como uma espécie de vilão e não apenas como o "outro lado da moeda".
Para entender essa questão, temos que vê-la sob todos os pontos de vista possíveis. Não podemos puxar a sardinha pro lado do brasileiro só por termos nascido no mesmo país.
O esporte é um meio sujo. De tudo o que aparece no filme, o negócio de Prost ser favorecido em algumas ocasiões por conta de sua amizade com o então presidente da FIA, Jean-Marie Balestre, não deve ter sido mentira. Um dos fatos que comprovam isso é a famosa corrida em Mônaco - 1984 - , na qual um desconhecido Ayrton Senna usou a sua habilidade em pilotar na chuva para ultrapassar quase todos os que haviam à sua frente usando um carro inferior. Quase todos porque, ao se aproximar da primeira posição, a corrida foi paralisada devido aos pedidos do líder da prova - Prost. Muitos dos presentes na ocasião afirmam que a pista tinha condições para que a corrida prosseguisse normalmente.
O segundo e mais conhecido evento que sintetiza essa questão mostrada acima é a decisão do campeonato de 1989, em Suzuka. Para que Prost se sagrasse campeão, Ayrton não poderia vencer a prova. Se Senna conseguisse vencer, adiaria a decisão para a corrida seguinte. Logo na primeira curva, um polêmico lance de Prost ocasionou uma colisão entre ambos, jogando os dois carros pra fora da pista. Apesar disso, Senna conseguiu retornar à corrida e, heróicamente, venceu a prova. Em seguida, Prost correu aos comissários da FIA e alegou que Senna deveria ser desclassificado por não ter contornado a primeira chicane normalmente na sua volta à pista. Depois de uma reunião que - imagino - foi bastante tensa, Senna foi desclassificado. Depois, em entrevista coletiva, Balestre jogou a culpa do acidente no brasileiro.
Mesmo antes dessa corrida, a relação de Prost com Senna já estava abalada e ambos não se falavam. Quando Senna chegou à McLaren no ano anterior, Prost era o astro da equipe e Senna era a maior revelação da categoria nos últimos anos. Obviamente era uma séria ameaça à posição do francês na equipe, o que acabou se comprovando com o título do brasileiro no fim daquele primeiro ano.
O que o documentário não mostra é o fato que desencadeou de vez o rompimento de relações de ambos os pilotos. O que se conta é que Senna e Prost haviam combinado de não se atacarem se estivessem disputando posições - uma viadagem de ambos, diga-se de passagem - trato que teria sido desrespeitado pelo brasileiro. Se isso realmente aconteceu, foi uma canalhice de Senna.
Estou questionando esse fato porque, através dos anos, vi uma ou outra pessoa da mídia afirmando que Senna era um cara meio mala. Ao que parece, no próprio circo da Fórmula-1 era visto assim. Entenda bem, não estou tentando inverter os valores que o filme prega e nem nada do tipo, mas ninguém pode transformar Prost em um vilão apenas pelo que é mostrado ali. Acho que a diferença básica entre ambos nessa questão é que Senna passava a imagem de idealista enquanto Prost era o que dançava conforme a música.
Outra coisa:
O Senna que, em 1992 criticou o excesso de auxílio eletrônico das Wiliiams que o fizeram comer poeira a temporada inteira, foi o mesmo sujeito que praticamente implorou para ser contratado pela escuderia no ano seguinte.
Contudo, adorei o documentário exatamente por essa questão que passaram de herói x vilão. A verdade é que a trajetória de Senna no esporte realmente foi uma bela história digna de romance, mas não podemos esquecer que ele foi também um ser humano comum. Com vícios e virtudes.
Assim como Prost.

0 comentários:
Postar um comentário